Amazônia emite 1,17 bilhão de toneladas de carbono a mais por ano, diz estudo na Nature
As medições atmosféricas realizadas ao longo de quinze anos comprovaram que a queima da biomassa florestal superou amplamente a retenção de gases poluentes efetuada pelas árvores vivas.

A Amazônia liberou para a atmosfera uma média anual de 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono a mais do que conseguiu absorver entre 2010 e 2024. Historicamente reconhecida como um regulador do clima global, a vegetação passou a operar em desequilíbrio contínuo decorrente da pressão antrópica sobre o ecossistema.
Os incêndios florestais figuram como o fator central dessa mudança expressiva de dinâmica ambiental. Enquanto a taxa média de absorção da mata ficou em cerca de 300 milhões de toneladas por ano, as queimadas lançaram aproximadamente 1,47 bilhão de toneladas anuais de gases poluentes no ar.
O impacto das queimadas e do clima extremo no bioma
As análises científicas demonstraram que o avanço do desmatamento e os períodos de estiagem prolongada intensificaram a perda funcional da cobertura vegetal. Em cenários marcados por forte estresse climático associado ao El Niño, a taxa anual de liberação líquida alcançou o recorde de 1,8 bilhão de toneladas.

Além da elevação nas emissões, os registros de focos de calor nos primeiros dez meses de 2026 superaram 41.300 ocorrências, aproximando-se do total de 43.130 apurado ao longo de 2025. Essa densa camada de fumaça resultou no fechamento de escolas e na sobrecarga de unidades médicas na região de Manaus.
"A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé", apontam pesquisadores do INPE, responsáveis pelo estudo publicado na Nature.
Alterações térmicas e o risco do ponto de não retorno
O histórico dos últimos 46 anos revelou alterações profundas no regime de chuvas e nos registros térmicos da floresta. Durante o ápice da estiagem, entre agosto e outubro, a redução na precipitação atingiu 20%, ao passo que a temperatura média no mesmo período subiu 1,81 °C.
Mesmo sob a ação atenuante de fenômenos úmidos como o La Niña, o balanço de carbono manteve-se deficitário devido à intensidade da destruição. Os cientistas apontam que a vegetação sobrevivente enfrenta um estresse severo, perdendo a capacidade de regeneração diante de eventos extremos recorrentes.
A conservação da integridade ecológica depende agora de metas imediatas voltadas à contenção do fogo, ao desmatamento zero e à restauração florestal. Essas ações conjuntas são necessárias para evitar a conversão definitiva do bioma em uma vegetação empobrecida e incapaz de sustentar sua rica biodiversidade.
Referência da notícia
Luciana Constantino. (2026). Fogo e desmatamento transformam Amazônia em fonte de carbono para a atmosfera.