A Via Láctea não possui a "esfera luminosa" que estabiliza outras galáxias: como ela sobreviveu a 7 bilhões de anos?

Um estudo investigou como galáxias espirais como a Via Láctea conseguiram preservar sua estrutura ao longo de bilhões de anos, apesar das colisões cósmicas. A análise de 54 galáxias revelou mecanismos que podem explicar a sobrevivência de galáxias sem bojos.

Bojos clássicos são regiões centrais densas e aproximadamente esféricas, formadas por grandes concentrações de estrelas em galáxias. Crédito: ESO
Bojos clássicos são regiões centrais densas e aproximadamente esféricas, formadas por grandes concentrações de estrelas em galáxias. Crédito: ESO

A Via Láctea apresenta uma característica que intriga os astrônomos: diferentemente de muitas galáxias espirais, ela não possui um bojo central clássico. Essa estrutura, geralmente formada por uma concentração densa de estrelas no centro galáctico, está associada à evolução e às interações gravitacionais entre galáxias.

O projeto internacional BEARD analisou 54 galáxias sem bojo clássico, usando mais de 600 horas de observações astronômicas. Os pesquisadores investigaram como esses sistemas evoluíram diante das colisões e interações gravitacionais que marcaram a história do Universo.

Os resultados apontam dois caminhos possíveis para preservar seus discos: evitar grandes fusões ou passar por encontros entre galáxias com configurações orbitais específicas. Esses resultados ajudam a compreender como a Via Láctea pode ter preservado sua estrutura e como foi a evolução ao longo do tempo.

Esferas Luminosas

As esferas luminosas também são chamadas de bojos clássicos e são regiões de alta concentração de estrelas. Geralmente, elas tem formato aproximadamente esférico e se destacam pelo brilho intenso em relação ao disco ao redor. Essas estruturas são compostas por populações estelares mais antigas.

Sua formação está associada a diferentes processos evolutivos, incluindo fusões galácticas, instabilidades gravitacionais e redistribuição de estrelas e gás.

Em galáxias espirais, o bojo ocupa a região central, cercada por um disco achatado onde se distribuem braços espirais, gás e poeira. Nem todos os bojos, porém, possuem a mesma origem ou estrutura: os clássicos tendem a apresentar uma distribuição mais esférica e movimentos estelares desordenados.

Via Láctea não possui uma

A Via Láctea não apresenta um bojo clássico grande e proeminente como o observado em muitas outras galáxias espirais. Em seu centro existe uma estrutura alongada de estrelas, conhecida como barra, além de uma região central mais compacta e densa.

Essa característica também está relacionada à história evolutiva da nossa galáxia. Um bojo clássico pode se formar por processos violentos, como grandes fusões entre galáxias, que redistribuem as órbitas das estrelas e produzem estruturas mais esféricas.

54 galáxias sem bojo

O projeto internacional BEARD foi desenvolvido para investigar como galáxias espirais sem bojos conseguiram preservar suas estruturas ao longo de sua evolução. Para isso, uma equipe de pesquisadores analisou 54 galáxias com essas características, reunindo mais de 600 horas de observações astronômicas.

O projeto BEARD analisou 54 galáxias sem bojos clássicos para investigar como esses sistemas preservaram seus discos estelares ao longo da evolução cósmica. Crédito: Projeto BEARD
O projeto BEARD analisou 54 galáxias sem bojos clássicos para investigar como esses sistemas preservaram seus discos estelares ao longo da evolução cósmica. Crédito: Projeto BEARD

O objetivo foi compreender como esses sistemas atravessaram bilhões de anos de interações gravitacionais, colisões e possíveis fusões com outras galáxias. A pesquisa investigou os mecanismos capazes de preservar os discos estelares, estruturas achatadas que concentram grande parte das estrelas e dos braços espirais.

Mecanismos de sobrevivência

Os pesquisadores identificaram dois mecanismos que podem explicar como galáxias sem bojo clássico sobreviveram. No primeiro cenário, esses sistemas simplesmente evitaram encontros próximos com galáxias muito massivas, escapando de colisões capazes de desorganizar suas estruturas.

O estudo identificou dois possíveis mecanismos de sobrevivência: evitar grandes colisões ou passar por interações gravitacionais com alinhamentos orbitais favoráveis. Crédito: NASA
O estudo identificou dois possíveis mecanismos de sobrevivência: evitar grandes colisões ou passar por interações gravitacionais com alinhamentos orbitais favoráveis. Crédito: NASA

O segundo mecanismo envolve a geometria das interações entre galáxias. Quando dois sistemas se aproximam com seus discos girando em sentidos e planos orbitalmente favoráveis, a interação gravitacional pode ser menos destrutiva, permitindo que suas estruturas sobrevivam à colisão.

Referência da notícia

Cardona-Barrero et al. (2026). Bulgeless Evolution And the Rise of Discs (BEARD) III. A numerical simulation view of satellites around Milky-Way analogues.