Água subterrânea: nível caiu 46,78 m em poço do Aquífero Guarani no interior paulista

Estudo reuniu dados de chuva, rios e águas subterrâneas no interior paulista e registrou queda de 46,78 metros no nível de um poço do Aquífero Guarani. O resultado é local e pede mais monitoramento na região.

A medição em um único poço revela uma condição local e não representa, sozinha, todo o aquífero.
A medição em um único poço revela uma condição local e não representa, sozinha, todo o aquífero.

O nível de água medido em um poço do Aquífero Guarani, em Bebedouro (SP), estava 46,78 metros mais baixo na última medição do que na primeira da série analisada. O dado aparece em um estudo publicado na revista Scientific Data, que reuniu registros de chuva, vazão de rios e águas subterrâneas da bacia do Baixo Pardo Grande. A diferença observada em um poço não representa, sozinha, todo o aquífero.

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A pesquisa organiza informações produzidas entre 1931 e 2025 numa região de 11.950 quilômetros quadrados, onde vivem mais de 410 mil pessoas e a agricultura tem forte presença. Seu objetivo principal é tornar os dados comparáveis e acessíveis para estudos e decisões sobre recursos hídricos. Chuva, rios e subsolo formam um sistema difícil de avaliar com medições isoladas.

Um poço profundo revela uma mudança importante

O poço de Bebedouro tem 924 metros de profundidade e alcança uma parte confinada do Aquífero Guarani, situada sob camadas de rocha. O monitoramento começou em 2012, foi realizado até 2018 e voltou a ser mantido pela equipe de pesquisa em 2021. Nesse tipo de aquífero, o nível observado no poço também expressa a pressão da água subterrânea.

Portanto, a queda registrada não equivale a afirmar que uma camada inteira de água perdeu 46,78 metros de espessura.

Há medições de dois poços mais rasos do Aquífero Bauru. Entre a primeira e a última leitura, o nível caiu 0,5 metro em Barretos e 1,13 metro em Altair. As séries têm durações, locais e condições hidrogeológicas diferentes; seus números não servem como comparação direta da gravidade em cada aquífero. Eles mostram, sobretudo, por que a bacia precisa de observações contínuas em mais pontos.

Chuva, rios e demanda no mesmo conjunto de dados

Além dos três poços monitorados, a base reúne séries de 108 pluviômetros e 28 estações de vazão. Os pesquisadores aplicaram filtros para sinalizar anos com falhas ou valores suspeitos e compararam estações próximas. Também organizaram 815 medições históricas de nível subterrâneo obtidas em cadastros e documentos de poços.

Na bacia do Baixo Pardo Grande, dados de poços complementam os registros de chuva e vazão dos rios.
Na bacia do Baixo Pardo Grande, dados de poços complementam os registros de chuva e vazão dos rios.

Os registros de 2021 incluem 1.549 outorgas filtradas de uso da água. Outorga é uma autorização de captação: sua vazão declarada indica demanda cadastrada, não mede automaticamente o volume retirado todos os dias. Os dados permitem examinar:

  • As séries de chuva mostram quanto entrou no sistema pela precipitação em diferentes áreas da bacia.
  • As estações de vazão registram a água que passou por trechos monitorados dos rios.
  • Os poços revelam variações locais do nível subterrâneo, ainda com cobertura espacial limitada.

Mais medições podem orientar a gestão da água

A integração dessas informações pode ajudar gestores a localizar lacunas de monitoramento e pesquisadores a testar relações entre chuva, vazão e água subterrânea. O estudo aponta que, embora os pluviômetros cubram boa parte da bacia, faltam estações em afluentes e poços de observação.

O Aquífero Guarani, que se estende por mais de um país sul-americano, exige cuidado especial: um único registro profundo é valioso, mas insuficiente para descrever sua situação regional.

Os dados também têm limites. Algumas séries contêm falhas, e medições históricas de poços foram feitas em momentos e condições diferentes. A pesquisa não determina a causa da queda em Bebedouro nem mede diretamente toda a água consumida.

A próxima etapa é ampliar o monitoramento contínuo, conferir as séries com novas observações e cruzá-las com uso do solo e captações efetivas. Esse caminho pode melhorar decisões sobre água em outras bacias brasileiras e internacionais que enfrentam a mesma escassez de informações subterrâneas.

Referência da notícia

Stager Quaggio, C., Vituri Santarosa, L., Valdambrini, B. et al. (2026). Rainfall, Streamflow, and Groundwater Dataset from a Complex Basin in Northeastern São Paulo, Brazil.