Colapso da AMOC: a grande ameaça climática ausente nos planos de adaptação de quase todos os países

Apenas dois dos 91 planos nacionais de adaptação analisados mencionam o risco de um colapso da AMOC. No entanto, esse vasto sistema de correntes do Atlântico poderia alterar drasticamente as temperaturas e os índices pluviométricos em diversas regiões ao redor do mundo.

Compreender a circulação do Atlântico (AMOC) também significa estar mais bem preparado para futuros riscos climáticos.
Compreender a circulação do Atlântico (AMOC) também significa estar mais bem preparado para futuros riscos climáticos.

Na Islândia, autoridades governamentais discutiram recentemente um cenário preocupante: o que aconteceria se o principal sistema de correntes do Atlântico desacelerasse significativamente ou até mesmo entrasse em colapso?

Um estudo publicado na revista Nature Sustainability revela que apenas dois dos 91 planos nacionais de adaptação submetidos à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) mencionam esse risco. Nenhum desses dois planos inclui medidas concretas para lidar com um eventual colapso.

O sistema de correntes que redistribui o calor ao redor do mundo

No centro dessa preocupação está a AMOC, sigla em inglês para Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Atlantic Meridional Overturning Circulation). Esse sistema transporta águas superficiais quentes em direção ao norte, para o Atlântico Norte, e, na sequência, conduz águas mais frias de volta para o sul, em maiores profundidades.

Ao redistribuir o calor, a AMOC ajuda a regular o clima global e influencia as temperaturas e a precipitação muito além da bacia do Atlântico.

Um estudo recente projeta um enfraquecimento de 50% até o final do século, considerando um cenário intermediário de emissões de gases de efeito estufa (GEEs). Esse número refere-se a uma redução projetada na intensidade da circulação, e não à probabilidade de um colapso. Um colapso total antes de 2100 ainda é considerado improvável.

A AMOC já passou por variações significativas no passado. Há cerca de 17.500 anos, ela sofreu uma interrupção quase completa, após o período mais frio da última era glacial.

Possíveis consequências que se estendem muito além do Atlântico

Uma desaceleração significativa — e, mais ainda, um colapso — alteraria a distribuição de calor e de chuvas em diversas regiões. No noroeste da Europa, a redução do calor transportado a partir de regiões tropicais poderia contribuir para invernos muito mais frios.

Em um cenário que envolva uma grande perturbação na AMOC, um estudo de modelagem aponta que as temperaturas em Londres poderiam cair para -20°C. Esse resultado ilustra um cenário possível, e não uma previsão para um ano específico.

Regiões dependentes das chuvas de monções também ficariam expostas. Experimentos de modelagem, nos quais a AMOC é interrompida, indicam um enfraquecimento médio de 29% na monção da África Ocidental e de 19% na monção de verão da Índia.

Uma redução no volume de chuvas poderia colocar em risco os recursos hídricos e a segurança alimentar de populações que dependem dessas precipitações.

Por que esse risco é tão raramente incluído nas estratégias nacionais?

Isso ocorre porque é difícil determinar sua probabilidade e o momento em que poderia ocorrer. Contudo, seu impacto potencial é considerável: algumas consequências poderiam contrariar as tendências atualmente priorizadas nas políticas de adaptação.

Um país que constrói um reservatório para lidar com chuvas mais irregulares pode acabar mal preparado caso a precipitação diminua ainda mais e a estação chuvosa se torne mais curta. Da mesma forma, investimentos em proteção costeira ou em sistemas agrícolas poderiam se tornar menos adequados se as condições climáticas evoluírem de maneira diferente do esperado.

O Brasil e a Irlanda estão entre os poucos países que mencionam esse cenário. O plano do Brasil destaca o risco de a faixa de chuvas do Atlântico se deslocar para o sul, o que poderia representar uma ameaça à Amazônia. A Irlanda aponta as limitações da adaptação diante de um possível colapso, dada a sua dependência da AMOC para manter seu clima temperado.

Preparando investimentos para futuros possíveis

Os pesquisadores propõem cinco abordagens: i) identificar os países e investimentos mais expostos ao risco; ii) testar a infraestrutura por meio de simulações que incorporem um enfraquecimento significativo da AMOC; iii) priorizar soluções flexíveis e escaláveis; iv) fortalecer o monitoramento das correntes oceânicas; e v) reavaliar as projeções climáticas globais. A AMOC também influencia a quantidade de carbono absorvida pelos oceanos, o que poderia alterar as projeções de aquecimento futuro.

Antecipar esse risco não significa prever a data de um colapso nem desviar recursos de crises que já estão sendo observadas. A redução rápida das emissões de gases de efeito estufa continua sendo essencial. As decisões tomadas hoje, especialmente aquelas relacionadas a recursos hídricos, infraestrutura e proteção costeira, precisam ser capazes de resistir a diversos cenários climáticos possíveis.

Referência da notícia

Brenden Jongman, Jim Hall. (2026). Key Atlantic currents could collapse this century, but the risk is missing from almost all national climate plans – new study.