O desaparecimento de insetos pode desencadear uma crise na vida selvagem
A vida selvagem em todo o planeta depende dos insetos de maneiras muito mais variadas do que a maioria de nós imagina. O declínio contínuo das populações de insetos pode ter consequências graves para animais e ecossistemas, segundo uma nova e importante análise global.

Um novo estudo revela que os insetos sustentam a vida selvagem não apenas como alimento, mas também como construtores, faxineiros, médicos e até mesmo guarda-costas químicos.
A pesquisa constatou que quase três quartos das espécies de vida selvagem terrestres e de água doce se alimentam de invertebrados — principalmente insetos — e que mais de dois quintos dependem deles exclusivamente.
De ursos-pardos e chimpanzés a lagartixas e rãs-venenosas, dezenas de milhares de espécies dependem dos insetos para sobreviver.
Mas o alimento é apenas o começo. Muitos animais dependem de frutas, sementes e outros alimentos que só existem porque insetos polinizam plantas ou dispersam sementes.
Alguns animais selvagens desenvolveram até mesmo formas extraordinárias de capturar insetos, como anfíbios e camaleões com línguas projetáveis, ou aves que aprenderam a remover os ferrões das abelhas antes de comê-las.
Insetos mantêm o funcionamento dos ecossistemas
Cupinzeiros e formigueiros servem como abrigo pronto para muitas espécies. Os animais utilizam essas estruturas para se proteger de predadores, reproduzir-se ou depositar ovos. Essas habitações construídas por insetos podem ser refúgios essenciais em ambientes hostis.
Alguns animais, como os sapos-flecha, produzem toxinas que os tornam menos atraentes para predadores, obtendo-as a partir das formigas e besouros que consomem.
Os insetos também ajudam a reduzir o risco de doenças ao decompor ou desidratar fezes, o que elimina parasitas.
Besouros protegem aves e mamíferos de insetos que picam e das doenças que eles transmitem, alimentando-se das larvas de moscas-varejeiras e de outras pragas.
Algumas espécies chegam a utilizar insetos diretamente como medicamento: chimpanzés aplicam insetos em feridas abertas, enquanto aves, répteis, anfíbios, roedores e primatas usam formigas para a higiene corporal.

Existem também relações notáveis de "convivência". Mariposas vivem em ninhos de corujas e martins-pescadores, onde fazem a limpeza de pelos, penas e fezes.
Outras vivem sobre o dorso de bichos-preguiça, depositando nitrogênio que favorece o crescimento de algas — uma fonte de alimento fundamental para os próprios bichos-preguiça.
Proteger insetos é proteger a biodiversidade
No entanto, cientistas alertam que o declínio generalizado das populações de insetos pode perturbar todas essas interações.
O Dr. Rob Cooke, ecólogo sênior do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido (UKCEH), afirmou que as formas notáveis como os insetos sustentam outros animais são "frequentemente ignoradas". "É provável que o declínio generalizado dos insetos em escala global tenha efeitos de grande alcance sobre a vida selvagem", disse.
"Além de reduzir uma fonte essencial de alimento, a perda de insetos traz o risco de alterar ecossistemas, prejudicar a polinização e a dispersão de sementes, enfraquecer processos de limpeza natural e modificar as inúmeras interações que permitem o funcionamento dos ecossistemas", afirmou ele.
A pesquisa foi liderada pelo UKCEH e pela Universidade de Binghamton, dos EUA, e analisou cerca de 300 artigos científicos publicados nos últimos 75 anos.
Referência da notícia
Cooke, et al. (2026). The importance of insect biodiversity for vertebrates.