Sabedoria ancestral: como civilizações do Peru enfrentavam os impactos do El Niño

Pesquisas arqueológicas mostram como civilizações pré-hispânicas desenvolveram sistemas de irrigação, contenção de enchentes e técnicas agrícolas que podem inspirar soluções atuais para enfrentar eventos climáticos extremos e proteger comunidades vulneráveis.

Achados podem servir como um exemplo e ser utilizadas hoje para reduzir ao máximo os efeitos. Crédito: Divulgação Agência Andina
Achados podem servir como um exemplo e ser utilizadas hoje para reduzir ao máximo os efeitos. Crédito: Divulgação Agência Andina

Civilizações que habitaram o Peru há milhares de anos desenvolveram estratégias para enfrentar os efeitos do El Niño, fenômeno climático associado a chuvas intensas, inundações e períodos de seca. Pesquisas arqueológicas revelam que essas populações construíram sistemas de proteção e adaptaram suas atividades agrícolas às condições ambientais.

Segundo estudos históricos, pelo menos 120 episódios de El Niño ocorreram no Peru nos últimos cinco séculos. O fenômeno provoca impactos distintos entre as regiões do país, incluindo enchentes no litoral e estiagens prolongadas nas áreas andinas, ameaçando comunidades e atividades produtivas.

As descobertas mostram que o conhecimento acumulado pelas sociedades pré-hispânicas pode contribuir para estratégias contemporâneas de adaptação climática. Entre as soluções identificadas estão canais de irrigação, muros de contenção e técnicas agrícolas capazes de reduzir os efeitos de eventos extremos.

Civilização Mochica desenvolveu sistemas contra enchentes

A cultura Mochica, estabelecida na costa norte peruana por volta de 200 d.C., desenvolveu uma extensa rede de canais para sustentar a agricultura em regiões desérticas. Essas estruturas também precisavam resistir às chuvas e enchentes provocadas pelo El Niño.

O compromisso com métodos alternativos de produção agrícola diante da ameaça da seca é resultado do conhecimento tradicional herdado pelas comunidades. Crédito: Divulgação Agência Andina
O compromisso com métodos alternativos de produção agrícola diante da ameaça da seca é resultado do conhecimento tradicional herdado pelas comunidades. Crédito: Divulgação Agência Andina

O arqueólogo Walter Alva identificou evidências de que os Mochica construíam muros de contenção e canais paralelos para proteger seus sistemas de irrigação. Quando uma estrutura era danificada, outras permitiam manter o abastecimento de água.

Pesquisas também indicam que os antigos habitantes evitavam estabelecer centros urbanos em áreas vulneráveis, como margens de rios e partes baixas dos vales. Essa organização territorial ajudava a reduzir os riscos de inundações e proteger as terras agrícolas.

Muros de quatro mil anos protegiam comunidades

No sítio arqueológico de Salinas de Chao, pesquisadores identificaram estruturas construídas entre 4.000 e 3.800 anos atrás. Considerados as evidências mais antigas conhecidas de infraestrutura de mitigação de desastres no Peru, os muros foram erguidos com pedras, barro e sedimentos.

Segundo a arqueóloga Ana Cecilia Mauricio, algumas estruturas preservadas alcançam 33 metros de comprimento. Estudos indicam que foram projetadas para conter sedimentos e fluxos de lama provocados por chuvas intensas, protegendo edificações próximas.

As descobertas demonstram que comunidades antigas desenvolveram soluções adaptadas às características locais, utilizando materiais disponíveis. Para os pesquisadores, esses princípios podem inspirar medidas de prevenção em regiões atualmente expostas a desastres climáticos.

Agricultura ancestral fortalece segurança alimentar

Nas terras altas do Peru, o sistema agrícola Waru Waru representa outra estratégia de adaptação. Utilizado há aproximadamente três mil anos, combina campos elevados de cultivo com canais de água, protegendo plantações contra secas, inundações e geadas.

Na região de Puno, comunidades aimarás preservam essa técnica para cultivar batatas nativas, quinoa e cañihua. Algumas variedades apresentam maior resistência à escassez de água, contribuindo para a segurança alimentar das famílias.

Apesar de sua importância, o sistema enfrenta ameaças relacionadas às mudanças climáticas, à migração e à transformação das práticas agrícolas. Sua preservação demonstra como conhecimentos tradicionais podem fortalecer a resiliência das comunidades diante dos desafios ambientais contemporâneos.

Referência da notícia

Portal Amazônia. (2026). El Niño: como as culturas antigas do Peru lidaram com os impactos desse fenômeno? ... - Veja mais em https://portalamazonia.com/meio-ambiente/el-nino-culturas-antigas-peru/.